Tchau

de Viamão, Brasil para Berlim, Alemanha.

🇩🇪

– Tu tem que ver o que é pra ti, sabe? Se tu ficar aí, tu provavelmente vai ficar nessa mesma por bastante tempo. É isso que tu quer?

Não, meu sonho sempre foi morar fora, do país.

O meu também é. Esse é o meu foco, pra sempre. Eu nunca tirei isso da mente.

A memória parece distante agora, mas não faz muito tempo que eu tive essa conversa. 30 de Março de 2016. Já faz um pouco mais de um ano. Falávamos de indecisões, insatisfações e mudanças, quando sonhos vieram à tona.

Sonhos. Pessoalmente, penso neles como desejos fixos que habitam a nossa consciência junto a outros desejos, mais efêmeros, e que, assim que você os deixa de lado (nem que seja um pouco), inconvenientemente voltam a te atormentar; lembrar que eles ainda estão lá e não são como os outros desejos.


“Esse é o meu foco, pra sempre. Eu nunca tirei isso da mente.”

Palavras minhas. Confesso, me assustam. Ou melhor, me assustavam. O que me assusta mais agora é o fato de eu ter lido isto em menos de um ano depois:

[…] I’m personally very happy to say that after everything we’ve heard and seen, we think you’re a great match for us and would love for you to join our team here in Berlin.

([…] Pessoalmente, estou muito feliz de dizer que, depois de tudo que nós ouvimos e vimos, achamos que você tem tudo a ver com a gente e gostaríamos que se juntasse ao nosso time aqui em Berlim!)

O que seria para sempre o meu foco, o desejo que eu descorri por 30 linhas no meu LG R510 em uma carta de maio de 2012, aquilo que eu nunca havia tirado da mente, naquele momento surgia como uma oportunidade. Eu topei.

Foram vários passos antes disso, e eu lembro de estar ansiosa antes de cada um deles. Encontrei pessoas maravilhosas durante o caminho, com um coração tão grande como o meu. Tanto na vida quanto nessa entrevista em particular.

Nas entrevistas, o processo simplesmente fluiu. Penso e gosto de pensar que é o que acontece quando os aspectos técnicos são vistos como meros meios necessários para aquilo que realmente importa: criar.

Desde aquele momento até hoje, o dia do meu voo, o tempo pareceu nunca passar em alguns momentos, e, em outros, passar rápido demais. Mesmo com a percepção confusa do tempo, tenho certeza de que poder enviar a mensagem abaixo é algo que eu não imaginava para tão cedo.

Just got the call! […] That’s an important moment of my life for sure. I’m just, you know, happy. Thank you for this.

The call. A ligação se referia a do Consulado Geral da Alemanha de Porto Alegre que recebi no dia 8 de maio, dizendo o que esperei 2 semanas (ou toda a minha vida?) para ouvir. O meu visto estava aprovado. Ali estava, sem dúvidas, um momento importante da minha vida.

Do resto do telefonema, confesso, não lembro muito. Minha maior memória desses instantes foi a de andar com o coração cheio até o centro de Porto Alegre como se fosse a última vez. E foi, pelo menos por um bom tempo.


Um sonho pode, afinal, terminar de 2 maneiras: sendo abandonado ou realizado.

Meu caso é o segundo, e, sinceramente, não está fácil acreditar. Se você me disser que a partir de hoje eu já não moro mais onde cresci, que meu voo hoje é só de ida, essa informação será processada de forma que ela não faça sentido na minha realidade. Eu não vou acreditar.

Por outro lado, nesse momento da minha vida em que a gratidão transcende o mérito, acredito em várias outras coisas. A principal é que sou o resultado do fenômeno que acontece quando a oportunidade encontra o anseio: alguém, no passado, acreditou em mim; alguém, no presente, acredita em mim. E eu não as deixei decepcionar.


Hoje estou voando para Berlim, a capital da Alemanha, para fazer o que amo na HelloFresh, que me ajudou em todo o processo. Sou grata por isso, por tudo.

Quanto à realidade, não é que eu não tenha medo. Eu tenho. Eu tive medo em todas as vezes que ousei. Desde o primeiro emprego que fui atrás no Brasil (no tédio do meu Ensino Médio), dos projetos além do meu conhecimento, até o meu primeiro emprego fora do Brasil… eu tive medo em todos eles.

Eu só jamais deixaria o sonho terminar do outro jeito, então eu topei tudo mesmo assim.

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