Como Eu Vi a BrazilJS 2015

É mais experiente que volto de mais uma BrazilJS, evento que acontece na cidade onde nasci desde 2012. Aqui, compartilho não um relatório técnico das palestras, não acusações do que foi ruim ou bom, mas minhas visões, em conjunto, sobre a conferência e a comunidade.

Importante observar que não seleciono aqui a “nata” do evento. Não é minha intenção desmerecer qualquer acontecimento. Meu objetivo com esse texto é somente compartilhar o meu ponto de vista sobre o que penso que deve ser comentado.

O primeiro dia

O meu dia começou localizando onde seria o evento. Neste ano, foi no BarraShoppingSul; um shopping que, considerando os outros da cidade, é de difícil acesso mesmo para quem mora há alguns quilômetros de Porto Alegre.

O Centro de Convenções, ao menos, foi fácil de achar, e o check-in ocorreu como esperado: pontual. As meninas que forneceram minha credencial estavam de ótimo humor — e olha que era um dos primeiros horários da manhã de sexta! Ano passado, o meu check-in foi feito pelo Jaydson, o que fez eu me perguntar onde estaria ele, se não credenciando os participantes do evento.

…E, na verdade, ele tinha se tornado um Power Ranger junto com o Felipe. E Power Rangers não fazem check-in. Descobri isso da pior maneira.

Uma abertura idiota

Dois desenvolvedores, os organizadores desse evento que trouxe mais de mil pessoas para o mesmo lugar, brincando de “lutinha” na frente de todo mundo, vestidos de Power Rangers só porque o JavaScript fez 20 anos. Essa foi a abertura da BrazilJS, e eu não mudaria nada.

Muita gente riu. Muita gente aplaudiu. Eu ri e aplaudi, e aplaudiria de novo, pois, sim, brincaram, mas também fizeram um trabalho muito sério. Ainda vestidos de Power Rangers, falaram um pouco da história da conferência e das expectativas para esse ano, finalizando com uma mensagem sobre a importância da diversidade e, sobretudo, do respeito.

Os eventos que se seguiram mostraram que, sim, o trabalho era sério.

Christian Heillman

“We are there for them. Not they for us.”

Com uma camiseta do Brasil, Christian chegou com um dos assuntos mais importantes na atualidade, e que está dando muito o que falar: pushing the web forward. Palavras de protagonismo, reiteração do nosso papel, motivação para acreditar na web e no nosso trabalho, e, o mais importante: como isso deve ser feito. Falou, claro, sobre o ECMAScript 6, sobre o Babel, e fez uma análise de como resolvemos os problemas atualmente.

“We all know the DOM is slow, terrible and to blame for all our problems. Did we allot it to say that way and still be a problem as we abstracted its issues away?

Acredito que essa essa frase foi pesada para muita gente, principalmente em quem está deprimido de tanto estudar soluções. Christian mostra que, ao trabalharmos com web, não somos apenas desenvolvedores ou designers (ao menos não deveríamos ser). Somos também web makers, e esse é o principal problema de simplesmente abstrair e deixar para lá.

É fácil entender a razão dessa abordagem. Heillman trabalha no time de desenvolvimento do Microsoft Edge, o novo e surpreendente navegador padrão do Windows 10, e esse é o ponto de vista dele enquanto browser maker: somos a representação máxima do protagonismo, e, por isso, desenvolver não deve limitar-se a frameworks ou libraries. Estamos em uma posição em que inovar sempre que possível é visto como uma contribuição, e ele ensina a entender esse ponto de vista desde a analogia feita logo nos primeiros slides. Não devemos esperar que a inovação venha apenas de grandes companhias.

Não disse para pararmos de usar ES6 com Babel. Não disse para usarmos ES6 em produção e beber água de coco na praia. Mas não é mentira que existem casos em que podemos, se assim desejarmos, relatar o que está de errado e o que faz falta, e é justamente aí que o nosso protagonismo é máximo.

Os argumentos foram reúnidos, as situações em que podemos nos tornar web makers foram apresentadas, e tudo em prol de provar o nosso protagonismo.

You are a creator of the next web!

Sem dúvidas, uma das melhores palestras que já assisti na minha vida. É difícil relatar uma interpretação detalhada sobre a mensagem do Christian, mas, aos que já se sentiram no dever de fazer a web um lugar melhor alguma vez e nunca deixaram de acreditar nessa mídia, acho que essas minhas palavras foram mais que o suficiente para compreender o pensamento dele. Simples e sensacional.

Use lowlevel

Tive dificuldades em acompanhar o raciocínio do Douglas Campos algumas vezes, e noto que isso se deu em razão de ele não estar falando a língua nativa. Não entro aqui no mérito das palestras em Inglês ou Português (para mim tanto faz desde que o palestrante consiga passar a mensagem de forma fluente na língua escolhida), mas reforço a importância de fazer a escolha certa, pois a tua escolha afeta um público que está confiando na tua capacidade enquanto transmissor.

Douglas falou sobre compiladores, e engajou os desenvolvedores a entender how things work under the hood, explorando conceitos como AST (Abstract Syntax Tree), um assunto que está finalmente chamando a atenção em JavaScript, tanto que não foi a primeira vez que foi abordado na BrazilJS.

Acredito que o questionamento que o palestrante buscou provocar no público não teve êxito. Os 30 minutos, infelizmente, não foram bem aproveitados e não atenderam às perguntas que o Douglas tentou provocar e responder. Ficou a sensação de uma mensagem subentendida, no entanto:

“It’s really important for us to take a look at the things we don’t necessarily like.”

JavaScript at Spotify

Felipe Ribeiro juntou os desafios encontrados durante a transição do Spotify (nativo com C++ para híbrido), e o resultado foi uma palestra bastante completa sobre arquitetura e engenharia de software. Diversificou bastante a programação da conferência, e mostrou que devemos analisar a necessidade de re-escrita de código em uma aplicação complexa sob uma ótica criteriosa que equilibra utilidade, valor e esforço necessário.

Desafios

Os desafios foram bastante interessantes. Um deles foi o gerenciamento de memória no Spotify, já que se trata de uma aplicação que não é descartada com a mesma frequência de um site. Outro, a organização do código, que era excessivamente fragmentado, o que prejudicava a padronização (diferentes versões de módulos), manutenção (atualização em “efeito cascata”) e integração contínua do projeto.

Releases

O Spotify estabeleceu uma cultura colaborativa de testes (sempre gostei dessa abordagem!). Os empregados usam somente versões experimentais da aplicação, ajudando a testar e agilizar os hotfixes. O release é gradual, e é distribuído na medida em que a versão vai apresentando estabilidade aos usuários que já possuem acesso.

A saga dos 12 tópicos de acessibilidade

A primeira vez que conheci o Reinaldo Ferraz foi no Front in POA em 2012. Na época, acessibilidade era mais novidade para as pessoas do que Sass. Todos conheciam Sass, ninguém conhecia WCAG.

Lembro de ter sido uma das palestras mais marcantes e diferentes do evento, e não foi diferente na BrazilJS. Esta foi a mensagem que ficou:

"Aplicar técnicas de acessibilidade em um site com usabilidade ruim é como passar batom em um porco. Não importa o quanto você passe, ele continuará sendo um porco."

500 days of open source

Uma palestra que dividiu bastante o público. Na verdade, acredito que o Raphael Amorim deu o melhor dele para fazer o discurso significar exatamente o que ele queria que significasse. O Raphael sabe se comunicar muito bem, e paciência foi o único requisito para captar a mensagem.

Vi muita dedicação na apresentação que ele fez. Organizou os aprendizados e os desafios de seguir à risca a proposta do John Resig, e os apresentou mostrando que “preencher grade de contribuições” ou “se sentir no dever todo dia” não é o suficiente para progredir. Inclusive, para quem acredita que isso é o suficiente, apresentou o Rockstar.

Esse tipo de palestra é essencial, e eu não estou disposta a discutir isso com ninguém. Havia mais de mil pessoas no mesmo lugar, e, por mais que não pareça, é uma minoria que contribui ou gerencia algum projeto open source, e também é uma minoria que contribui há tempo o suficiente para passar por todos os desafios que o Raphael passou. Foi uma palestra sobre open source, mas também sobre esforço e saber o que está te movendo para se esforçar mais: criar.

(Entendi o trocadilho no nome, a propósito.)

David Bryant

Happy birthday, JavaScript!

Terminou o primeiro dia de BrazilJS tal como o Christian o iniciou: fazendo-nos acreditar no que trabalhamos. David Bryant, que faz parte do leadership team da Mozilla, falou sobre a evolução do JavaScript até o seu aniversário de 20 anos, e em como devemos acreditar na web em detrimento da plataforma nativa. Para isso, lembrou da palestra Nick Desaulniers, anterior a dele, que mostrava quanto esforço tem sido feito para que a web alcance a plataforma nativa.

David, representando a Mozilla, deixou óbvia a mensagem: a web é a melhor plataforma.

O segundo dia

What can you build with a log

James começa explicando sua motivação: a impermancência e a centralização do conteúdo são coisas negativas da web. O que podemos fazer sobre isso? Ué, abrir o Vim, e construir meu cliente torrent, Flickr, Twitter…

O Substack é uma pessoa extremamente simples e humilde. É impossível não achá-lo, no mínimo, adorável. Um dos live codings mais fluídos e espontâneos que já assisti.

Reduce: seu novo melhor amigo

A Ju Gonçalves explicou o uso do reduce() na prática. (Na prática mesmo, para sair da BrazilJS usando, caso nunca tenha usado.)

O tema escolhido complementou muito bem a palestra de programação funcional do Jacob Page, anterior a dela. O formato ficou perfeito para 30 minutos (a propósito, a ideia de abordar apenas o reduce() foi muito legal!), e deu para aprofundar bastante em algo que deve fazer parte do dia a dia. Só fiquei com a sensação de que 5 minutos a mais ajudariam ela a guiar os exemplos com mais calma. O tempo estava bastante inflexível nesse quesito.

Enfim, a Ju sabe o que faz. Não a conhecia pessoalmente ainda, mas conheço o trabalho e o entusiasmo dela e apostaria nela de longe, tal como a organização da conferência, sem dúvidas, fez.

ECMAScript 6: O que Há de Novo, O que Mudou, O que tem de Bacana ou de Estranho!

Título engraçado.

Quem foi na BrazilJS do ano passado sabe muito bem quem é Jonathan Sampson. Em 2014, ele deu um nó na cabeça do Daniel Filho ao falar Português durante a entrevista.

No entanto, ano passado ele palestrou em Inglês. Neste ano, ele falou sobre o ES6 totalmente em Português, e fez muita gente rir com coisas simples, como, por exemplo, referir-se aos que não entendiam hoisting de variáveis como “chorões do Stack Overflow”, ou até mesmo perguntar como se traduz replace (todo mundo sabe que é “substchitutituir”, no caso).

JavaScript Robotics: A NodeBots show

Julián Duque é uma pessoa admirável. Eu fico realmente muito alegre vendo o envolvimento dele com projetos como a NodeSchool. Pelo tópico da palestra, dá para ver como ele acredita bastante em JavaScript.

Como o Laurie disse, o trabalho feito foi sensacional. Mereceu todos os aplausos recebidos, tanto pela apresentação quanto pelos projetos paralelos que organizou.

E ele fala Português (não só no Twitter).

Brendan Eich

Não estive na BrazilJS 2012, então esse foi o meu primeiro encontro com aquele conhecemos como criador do JavaScript.

A palestra dele foi engraçada, motivacional e também técnica. Falou sobre como foi criar o JavaScript em 10 dias, deu explicações sobre o wtfjs, e mostrou o quanto valeu a pena acreditar no JavaScript.

Terminou com a frase que foi a grande mensagem da BrazilJS 2015: always bet on JS.

O fim

O evento acabou com um show de rock e cerveja artesanal. Não sou uma pessoa agitada, nem gosto de beber cerveja, nem queria me arriscar a chegar tarde em casa (voltaria de ônibus), então me limitei a finalizar meu dia indo falar com o Daniel Filho, que estava com outras duas pessoas, o Leonardo Balter e o Igor-que-foi-aprender-Inglês.

(Conversar com o Leonardo faz bem para a mente, pois ele não só se dispõe a te ouvir como também te recebe bem. Se um dia encontrá-lo, inicie uma conversa, talvez você ganhe um grande amigo.)

Saindo do BarraShoppingSul, lembro que, fora do shopping, aquele é um lugar deserto. Deserto. Em direção a parada, com meu computador na mochila, encontro um homem que promete não me assaltar e que só quer dinheiro para ir para casa. Dou o que tenho para ajudar, e ele insiste que eu dê mais, afirmando saber que eu tenho mais. Nego gentilmente, e entro no T4 para ir embora logo. E, aos que não conhecem Porto Alegre, o T4 é simplesmente o ônibus mais inseguro da cidade.

Era um assaltante. Isso foi me dito no ônibus por uma moça, que disse também que tive sorte de não ter sido assaltada. Não entendi o que me salvou, se foi a distância que mantive do homem, se foi o fato de eu não estar desatenta no celular… Enfim, cheguei em casa bem e feliz com os dois dias que se passaram.

Notas sobre o espaço

  • O lugar onde a conferência ocorreu é legal, pareceu bem mais aberto que o Bourbon Country e não distancia as pessoas de quem palestra. O Teatro do Bourbon Country é confortável, exageradamente belo, possui uma ótima acústica; mas, além de enjoar, valoriza muito quem está palestrando, pois é um espaço para dar palestras e nada mais. Todo o networking que acontece ali é fora de onde as palestas ocorrem.
  • O espaço não é mais aberto no sentido de não te sufocar. O local fica no subsolo do shopping, portanto, não há acesso fácil e sem demora a rua, como havia no Bourbon Country. Lembro bem de ver o sol na BrazilJS do ano passado. Parece pouco, mas é muito importante quando se fica dois dias no mesmo lugar, com luz artificial e tal. Isso simplesmente dá muita abertura para acelerar a fadiga, ainda mais que você acaba comendo no shopping pela facilidade (pois a única coisa que tem no bairro do Barra é o próprio Barra, sério), então você nunca sai dali. Sinceramente, durante essa BrazilJS, eu esqueci que orbitávamos ao redor de uma estrela chamada Sol. (Esse parágrafo é muito pessoal, realmente não espero que ninguém concorde comigo com meus exageros, e de nenhuma forma exijo que sejam levados em consideração.)
  • Muitas pessoas levam notebooks e o Espaço BrazilJS foi uma ótima ideia para lidar com isso. Conciliou o útil (reconferir palestras, programar durante coffee break) ao agradável (não ficar no computador durante palestras). É muito legal ter um lugar para ficar com o notebook, embora eu não recomende levar caso vá embora de ônibus, como vivenciei.

Notas finais

  • Foi difícil comer e beber no primeiro dia. Percebi que, em vez de as pessoas organizarem-se em filas, muitas ficavam no entorno da mesa do coffee break, e isso dificultou muito o fluxo. No segundo dia, no entanto, foi bem mais organizado.
  • Os organizadores não param. Estão sempre envolvidos com o evento, resolvendo pendências e atendendo a feedbacks. Houve dedicação integral por parte do Daniel, Felipe e Jaydson em fazer uma conferência confortável para todos. O segundo dia não foi mais tranquilo porque simplesmente foi e a a conferência deste ano não foi mais diversa porque simplesmente foi. Agradeço a eles por isso.
  • Percebi uma mudança de formato em vários aspectos neste ano, e a principal delas foi a redução da duração das palestras. Bastante notável. 30 minutos por padrão, e aproximadamente 1 hora para keynotes. Gostei bastante, já que possibilitou uma transição bem saudável entre assuntos e palestrantes, o que ajuda muito a digerir o conteúdo. A BrazilJS dura 2 dias inteiros que terminam cansativos, e é fato que isso acelera o cansaço, mesmo quando a apresentação está muito interessante.
  • Quanto mais eu comia o chocolate da Mozilla, mais eu queria. Tive de comer 7 seguidos para satisfazer o meu consumo desenfreado de açúcar. E não recomendo para ninguém.
  • A quantidade de homens é avassaladora. Embora as iniciativas em apoio à diversidade tenham sido realmente efetivas (vi, por exemplo, mais mulheres neste ano), sabe-se bem que uma mulher na BrazilJS é uma mulher em meio a homens. É o que a proporção permite afirmar.
  • Não havia camisetas da BrazilJS para mim, e isso me deixou um pouco triste, pois elas estavam muito bonitas neste ano. Segundo o Eu Compraria, a confecção foi apenas de versões masculinas da camiseta. No entanto, o problema não é a versão ser masculina, o problema é que o tamanho P da versão masculina é gigante em mim. Até a vendedora ficou com dó da minha situação. 😦
  • O BarraShoppingSul é um shopping completo e muito espaçoso, mas o bairro onde ele está é bastante inseguro e difícil de acessar caso você não esteja vindo de carro.
  • O Daniel Filho é um apresentador muito legal.
  • A BrazilJS 2015 foi ótima, e isso me deixa bastante ansiosa para a conferência de 2016.

Até o próximo ano!